Silêncio na arte: o que se perde quando tudo vira performance?

“O que é verdadeiro é invisível, não pode ser exibido.” — Byung-Chul Han

Em um mundo cada vez mais acelerado, onde tudo precisa ser compartilhado, performado e validado por curtidas, o silêncio na arte tornou-se um ato de resistência.No último fim de semana, parei diante de uma árvore à beira do rio. A luz era suave, a brisa leve. E, pela primeira vez em muitos dias, eu não senti a necessidade de fotografar. Nem uma foto. Nem um story. Apenas estar ali. Presente.Esse instante, aparentemente simples, despertou uma inquietação profunda: será que ainda conseguimos viver um momento sem transformá-lo em conteúdo?

A poética visual e a experiência não performada

Como artista e pesquisadora de poética visual e arte contemporânea, reflito constantemente sobre os limites entre o olhar e o clique. Entre o sentir e o postar. Entre a vivência e a performance.

A arte, quando nasce do silêncio e da contemplação, carrega uma força que não pode ser cronometrada. Ao estudar obras que exploram o vazio, o intervalo e a pausa, percebo que é nesse espaço não preenchido — e muitas vezes não visível — que mora o potencial mais autêntico da criação.

O silêncio como resistência na sociedade do desempenho

A crítica de Byung-Chul Han à sociedade do desempenho nos alerta sobre como até mesmo o descanso e o lazer são capturados pela lógica da produtividade. O silêncio vira conteúdo. A contemplação vira nicho. A presença vira estratégia de engajamento.

Nesse cenário, a arte que não grita, que não se explica, que apenas existe, pode parecer deslocada. Mas é justamente esse deslocamento que a torna urgente.

Como ritualizar a criação no cotidiano?

Rituais cotidianos — como observar a luz de uma tarde, ouvir o vento ou apenas respirar — podem se tornar sementes de uma arte mais intuitiva, viva e não capturada.Ao pensar em processos criativos desacelerados, volto à pergunta que me acompanha:

O que acontece quando escolhemos não registrar?
O que a arte pode ser quando nasce do intervalo e não da entrega imediata?

Arte como pausa, não como produto

Se queremos cultivar uma relação mais profunda com a arte e com a vida, talvez devamos reaprender a valorizar o que não aparece no feed. Aquilo que é vivido em silêncio, que não se transforma em post, mas que se sedimenta na alma.

Silenciar também é criar. Desacelerar também é produzir. Estar presente também é um gesto poético.

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